Denize Guedes, prazer .o/

Nasci em 1979, filha de migrantes (ela é da Paraíba, ele, do Rio Grande do Sul) que escolheram São Paulo para crescer na vida. Cresceram. Estudei só em colégios particulares, fiz faculdade (de jornalismo, o que quer que isso dê conta de mim) e pós. Tive carro aos 18 anos (pais orgulhosos da cria), emprego bom aos 22, na capital federal e tudo. Recebia mais do que o suficiente aos 27, viajava para fora a trabalho e a lazer. E era infeliz. Achava que era por não ter sido repórter de jornal quando tive a chance. Pus minhas inseguranças debaixo do braço, voltei para São Paulo e passei tortamente a tentar acertar as contas com o destino. Acertei. Indo do céu ao quase inferno em dois anos e meio de redação em um grande jornal. Não era para mim. Pedi para sair. E vim descobrindo ― não sem dor nem um tanto de coisa que usamos para aliviar e seguir com o programa ― que não era jornal que não era para mim. Era a vida capitalistinha que nos é oferecida como normal, boa e de sucesso. Aí, fui vendo mais "Coisas que queriam ser coração", recolhendo lixo para o "Deslixe-se", traduzindo o mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível, até pedir dinheiro na rua como "Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :)". E fui. Para Paris. Para o OuiShare Fest 2015, o maior evento mundial da economia colaborativa. Voltei e experimentei empreender a mim mesma com o "Mordenize", pelo qual me preparava para viver um ano sem dinheiro. E vinha nisso, isso de crescer em vida, quando, em dezembro de 2015, o derrame nos acometeu.