Nasci em 1979, filha de pais que migraram para São Paulo (dona Deise veio da Paraíba, 'seu' Amaury, do Rio Grande do Sul) para "crescer na vida". Cresceram. Estudei sempre em colégios particulares, o mesmo vale para faculdade e pós. Ganhei um carro aos 18 anos, consegui um bom emprego aos 22, estava "bem encaminhada" aos 29... e muitíssimo perdida, infeliz.

Tenho hoje 35 anos, creio que meus pais têm para eles que perdi o rumo, que desencaminhei, embora me apoiem (ao que sou muito grata). Já faz um tempo, não me sinto mais perdida, tampouco infeliz. Não é tão simples ligar os pontos que fazem de mim quem sou hoje, mas tenho clareza de que todos passam pelo senso avassalador que me orienta no sentido de desenvolver os dons/talentos/habilidades que trouxe comigo em uma espécie de mochilinha invisível, desde que me aninhei na barriga da minha mãe, para honrar a aventura que nos é dada. Esta coisa que é estar vivo. E se é por estar viva, que eu esteja a serviço dela, da vida. E que eu liberte o potencial dos meus dons/talentos/habilidades para fazer, aqui e agora, o mundo mais bonito que meu coração sabe ser possível.

Não consigo dizer desde quando penso em termos de honrar a vida, nem o que me levou a pensar assim. Só sei dizer que é uma noção que me acompanha (por muito tempo me assombrou, principalmente ali pelos 20) há muitíssimo tempo. Lembro de ter ficado, na orientação vocacional para o vestibular, com três opções: jornalismo, artes cênicas ou tradutor|a e interprete. Curioso como, à época, eu não enxerguei como todas têm a ver com expressão -- coisa que hoje sinto fortemente que foi o que vim fazer aqui, me expressar. O fato é que não tive coragem de assumir para o meu pai que gostaria de prestar artes cênicas, como me incentivou meu então professor de teatro do colégio. Eu ia viver do quê? Saber que teria de responder isso ao meu pai me fez descartar. Optei, então, pelo jornalismo. Meu pai respeitava jornalistas. E parecia uma boa ocupação da qual se viver, enquanto se ajudava o mundo a mudar.

Foi bem antes de me dar conta de que não mudaria mundo nenhum no jornalismo tradicional (chamem-no também de industrial ou corporativo -- os quais funcionam justamente para manter o status quo) que ganhei o carro, ainda no primeiro ano de faculdade. Era o reconhecimento dos meus esforços pelos meus pais. Mais, era a prova de que eles haviam crescido, de que podiam me dar o que não tiveram. E eu no meio disso? Eu me sentia correspondendo, sendo amada, trilhando o caminho rumo a uma vida "bem sucedida": o que envolvia um bom emprego com bom salário, melhor ainda se houvesse perspectiva de crescimento. E era isso. A vida.

Eu ainda não sentia com força ali, mas já se desenvolvia dentro de mim a falta de sentido e a infelicidade que me fizeram abandonar o maior salário que já ganhei na vida, de um dígito mesmo, R$ 5 mil, aos 29 anos. Eu morava em Brasília, havia mudado para lá poucos meses depois de me formar: racionalmente atraída pelo salário quatro vezes maior do que o de onde eu estava (sem contar que era 2003, início de um novo tempo, do então esperançoso governo Lula) e irracionalmente levada pela ideia de que, não indo, eu estaria entregando o meu destino para outra pessoa viver (porque eu tinha indicado uma amiga!). 

O fato é que era para trabalhar em assessoria de imprensa, área em que eu não queria fazer carreira. Eu queria era ser repórter de jornal. O fato 2 é que eu -- já (!) -- era repórter de jornal, levada a uma grande redação por um grande nome do jornalismo que havia apostado em mim ao ler apenas a abertura de um único texto meu. O fato 3 é que eu ganhava R$ 400... já andava trabalhando 12 horas / 14 horas por dia... e pendia sobre a cabeça do diário a possibilidade de fechamento (o que de fato ocorreu, mas somente uma década depois). Ir para Brasília, de repente, parecia a decisão mais acertada mesmo. Fui. Chorei feito nem sei o quê no avião, brava pelo salário que justificava eu ir, brava por ter considerado possível destinos serem trocados assim, brava por ter ouvido quem me aconselhou a ir.

Mas o fato 4 é que, vejo claramente hoje, eu tinha de ter vivido os cinco anos e meio que passei em Brasília: foram eles que me mostraram que, não importasse o número de compras que eu fizesse na Zara, a quantidade de vezes que eu fosse ao cinema no fim de semana, o número de restaurantes e cafés que eu frequentasse, o quanto eu tentasse em terapias me convencer de que talvez meu caminho fosse aquele em assessoria mesmo, eu não conseguia alimentar suficientemente o meu coração. No meu coração, eu sentia que havia algo de muito errado em achar normal odiar as noites de domingo, em achar normal enrolar no trabalho (como se eu tivesse tempo de vida a perder), em achar normal não ser apaixonada pelo que eu fazia, em achar normal ter dificuldade para dormir. Ao mesmo tempo, o que eu achava que deveria fazer, que ainda era ser repórter de jornal, eu morria de medo de tentar ir atrás.

E foi aí que aprendi que nada, nada mesmo, segura a força de uma vontade que se resolve atender. Foi dando voltas por caminhos tortíssimos, depois de me demitir do DF, que consegui ir parar em redação de jornal, consegui assinar como repórter, em 2010. Nossa, nos primeiros seis meses, eu não queria ir embora nem para dormir, de tanto que eu gostava de estar ali. Durou dois anos e meio para eu perder as ilusões. Não havia gente interessada no tipo de texto que eu escrevia, o jornalista que gostava daqueles meus lides fora do padrão já estava morto (de verdade). Não havia muita gente interessada em ser abraçada ou assumir fragilidades. Não havia muita gente tolerante a corações (foi nessa época que surgiu o Coisas que queriam ser coração). Muito menos a choros, que, em nome de um negócio chamado profissionalismo, tinham de ficar restritos à solidão de uma cabine de banheiro. Quando muito. Sufoquei e fui-me embora. Parece que redação é um lugar bom de vicejar vaidade e o cinismo que parece ter virado etiqueta hoje em dia. Difícil desenvolver -- não "profissionalmente", mas de verdade verdadeira -- dons/talentos/habilidades a serviço de um mundo mais bonito num lugar assim, especialmente quando você vasculha sua mochilinha e não encontra 'lixa para criar casca' nela.

Saí dali para ganhar o segundo maior salário da minha vida, R$ 4,2 mil, numa agência de conteúdo. Fui muito mais para não chocar minha família ao desempregar-me por livre e espontânea vontade do então "trabalho dos meus sonhos" do que pela ocupação e salário (mais de R$ 1 mil acima do que eu ganhava em redação). Eu não queria dar aos meus pais o desgosto de ver a filha, em quem tanto investiram, desempregada. Mas não teve jeito, só aguentei dois meses e pedi para sair. Eu não via sentido no que fazia, as Jornadas de Junho fazendo barulho lá fora, todo um mundo por se construir sobre os escombros de um antigo que segue despencando à nossa volta, e eu ali, como falando das instalações do Titanic, trabalhando para um paradigma de mundo que afunda rapidamente (em termos históricos). Pelo menos, é como eu vejo. E lá estava eu perdida de novo.

À esteira de um frila de viagem que havia surgido, saí sem ter muito claro o que fazer além de viajar dali alguns dias. Viajei. As Jornadas de Junho ainda aconteciam enquanto eu mostrava a jornalistas estrangeiros como o País estava se preparando para a Copa de 2014. Eu era a própria incoerência de mim mesma, sem ainda ter plena consciência disso. Na volta, comecei a tocar uma ideia que me atraía: formar um portal independente de notícias circunscritas à Avenida Paulista (roubem esta ideia, por favor!). Mas também não sabia como. E muito do que eu lia, ou com quem conversava, apontava um caminho de startup, de buscar investidor, de ter dinheiro a priori. Sendo que percebi não ser suficientemente apaixonada pela ideia, nem me ver como CEO de um troço desses. Eu, CEO?! Hahahah!... 

Foi mais ou menos nessa época que assisti pela primeira vez ao TED da Amanda Palmer (abaixo). Chorei, chorei... Primeiro, porque identifiquei de cara aquilo ser libertar o potencial dos dons/talentos/habilidades; segundo pela verdade óbvia que ela coloca, da real conexão entre pessoas, possibilitando trocas genuínas (inclusive com dinheiro); terceiro porque, se eu me via fazendo algo na Paulista, era sendo estátua-viva que nem a Amanda Palmer (sério, levei até para a terapia)! O que eu ainda não sabia ali era que já estava entrando em contato com a economia da colaboração e com a economia da dádiva (ou economia do dom, economia do presente... em inglês, é gift economy), que hoje tanto me interessam e me dão esperança. Vale a pena assistir (legendas em espanhol):

Dali em diante, foi um carrossel de emoções, com direito a rompimento com 'seu' Amaury. Pirei com tudo, fui morar numa quitinete de 35 m, na Paulista, dividindo com mais seis pessoas e um cachorro, fui vendedora de roupa artesanal feminina, trabalhei de cumim em um bar de tapas na Augusta, de assistente e de vendedora de uma artista que estampa santos em gesso, fui babá por algumas noites... e, contraditoriamente ao que eu buscava negar, usei muito cheque especial para cobrir o que esses trabalhos não cobriam. Terminei com uma dívida suficientemente grande para me preocupar. Sem ter onde seguir morando, com muitos amigos e parentes me achando pinel.

Daí que surgiram duas oportunidades de eu quitar meu rombo junto ao Bradesco: um novo frila de viagem (eu trabalhava com a indústria do turismo em Brasília [o que quer que a palavra "indústria" harmonize com turismo]) para acompanhar jornalistas estrangeiros por ocasião dos preparativos para a Copa (pois é, foi a última viagem que fiz, era realmente contradição demais) e ser uma das relações públicas do turismo de um país sul-americano no Brasil, durante quatro meses. Com o Bradesco em mente, topei. Lá ia eu todos os dias vestidinha de social oferecer minha força de trabalho em uma grande agência. Nada contra o país, mas muito contra o ambiente corporativo e suas dissimulações. Parece mentira, mas pensar no Bradesco, e na amizade de uma colega, foi o que me salvou.  

O restante de 2014 foi marcado pela reconciliação com o 'seu' Amaury; pela experiência (que segue em curso) de trabalhar comunicação, conteúdo e relacionamento fora da caixa na panela da fervo; pelo ativismo durante e depois da Copa com os Observadores Legais (OLs); pela compostagem doméstica e a companhia de minhoquinhas em casa; pelo início do estudo (independente) do capitalismo versus as mudanças climáticas; pelo contato com a economia da colaboração; pelo mergulho na obra de Charles Eisenstein; pela descoberta do abundante campo de possibilidades da Laboriosa 89; pela conexão com tanta gente cujos corações mais do que sabem do mundo mais bonito possível; pelo início do Deslixe-se; pela gratidão ao universo, que nos surpreende dos modos mais inesperados.

Fosse eu casada e/ou tivesse filhos, não sei se minha trajetória se manteria a mesma. Gosto de pensar que sim. Gosto de pensar que isso nos fortaleceria a nos ajudar mutuamente a melhor cultivar e desenvolver as sementes dos nossos dons/talentos/habilidades, libertando potencial em benefício desse mundo mais bonito. Só gosto.


O QUE FAÇO É LIVRE. PODE COPIAR, COMPARTILHAR E REMIXAR. Só dê o crédito, ok? ;-)