COISA #1 ― Jerry Maguire bem já dizia: ‘Vivemos em um mundo cínico. Um mundo cínico’. Mas que muito cínico isso ter partido de Hollywood

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No dia em que a pior próxima coisa #1 aconteceu, eu estava afundada em um dos meus vícios. Até percebi que havia algo de errado com o jeito como a minha mãe tentava prender o coque, penteado que fazia toda manhã havia décadas, desde bem antes de ter me posto neste mundo, coisa que aconteceu 38 anos atrás, mas decidi não me preocupar com aquilo naquele momento, irritada que estava com ela, com o comportamento como sempre emproado dela, e simplesmente persisti em meu vício. Um vício muito lícito e bem visto, aliás. Ler as manchetes do momento na homepage dos grandes veículos nacionais e, a depender, na de independentes também. Em época de fissura, devo fazer isso umas dez vezes ao dia. Sendo que cada lida implica em uma ronda por até cinco veículos. Uma rapidinha, dois. E leio tudinho, vou rolando a tela, normalmente no celular, desde o alto até o pé. Coisa de nóia, reconheço. Pois naquela manhã de 8 de dezembro de 2015, todas as homes estavam era inundadas por um vazamento ― o vazamento de uma carta ressentida do então vice-presidente da República para a então presidente da República, agravando o então já muito tenso clima político da república. A república? O Brasil, um dos tantos países classificados como em desenvolvimento ou emergente na lógica do atual estágio do capitalismo global. Lembro que, enquanto reparava na falta de destreza dela em levar a mão direita à cabeça, em custar a pôr o grampo na base do coque, pensava que #OpsVazei ou #ImaginaNemFuiEu e #UmDoisTresVazar eram hashtags que davam conta do que realmente aquele vazamento, entre aspas, parecia se tratar. Ao menos, para mim.

Quase dois anos depois, ainda é comum eu me lembrar desse dia com culpa. Bastante culpa. A depender de como a lembrança vem, meu peito pode apertar e eu, desabar a chorar. Outras vezes, fico dando repeat na minha mente da cena dela fazendo o coque, zero expressão no rosto, o olhar boiando fixo em um ponto incapaz de fazer diferença. Quando um ou outro jeito de lembrar acontece em um local público, tipo o metrô, ou engulo o choro ou perco a minha estação. Invariavelmente. Se estou só, o choro é livre, assim como o repeat...

>> Coisa estará completa até 9/10/17