Uma coisa não me sai da cabeça: e se eu estiver desperdiçando a minha vida?

Capítulo 2 da PARTE 1 de "A melhor próxima coisa agora"

pexels.com

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Começo em uma manhã de sábado. 

Estou na área de serviço, no tanque, lavando o bebedouro do Dog. Reparo mal reparando o dia bonito que encontra brecha de ensolarar a cozinha. Estou concentrada demais — bem perdida dentro de mim, na real — em tirar o limo da peça. O que nem seria assim tão necessário, já que tem três semanas que o Dog bebe água como um camelo quando encontra água no deserto. É efeito colateral do anti-inflamatório. Ele sente muita sede, ele bebe muita água. Eu, lavo muito o bebedouro e reponho muito a água. Só mais uma tarefa repetitiva diária que incorporo às tantas outras desde que uma veia entupiu no lado esquerdo do cérebro da minha mãe, nove meses atrás.

Meu pai, recém chegado da rua com o Dog, já está ao fogão. Pano de prato no ombro, de olho na panela com água quase fervendo onde vai preparar ovos cozidos. Ele está nessa fase agora, a dos ovos cozidos. Já teve a dos ovos só fritos, seguida pela dos só mexidos, seguida pela dos fritos e mexidos, seguida agora pela dos só cozidos. Ele foi comissário de bordo de voo internacional, em um tempo em que se servia ovos no café da manhã do jeito que o passageiro de executiva ou de primeira classe bem entendesse, e precisou dominar a arte de fazer ovos. Eu acredito que ainda virá a fase dos ovos só quentes. Dos omeletes, não. Omelete nunca foi uma coisa da qual ele se gabasse saber fazer com ovos. Já os demais…

 — Olha, duas vezes já, tão no automático, quebrei os ovos, joguei a clara e a gema no lixinho e fiquei com a casca na mão pra pôr na frigideira. Desperdicei vários ovos nessa brincadeira já — diz, achando graça da própria atrapalhação desde que isso tudo começou.

Enxugando as mãos na calça jeans que agora me é esqueleticamente folgada, o bebedouro já reabastecido em seu devido lugar, entre a gradinha de cachorro e a máquina de lavar, penso três coisas enquanto observo o Dog, um vira-lata caramelo de porte médio lindo, se fartar de água:

1. Pode ser por isso que ele só tem feito ovo cozido, já que só se tira a casca depois de pronto;

2. Que bom deve ser conseguir rir disso, eu mal tenho dado conta de respirar com essa aflição e essa angústia que acharam jeito de se infiltrar de novo no meu corpo;

3. E se a gente vem para a vida com uma determinada quantidade de ovos numa cesta e, em atrapalhações dessas, desperdiça vários ovos? Quantos eu já não desperdicei? Quantos estou desperdiçando nesses nove meses? Ou não se trata de nada disso? Isso de eu ter parado tudo — mas tudo também o quê, Denise? — para cuidar da minha mãe? Mais: ainda tenho ovos?

Não divido os pensamentos com meu pai. O primeiro, por economia de energia mesmo. Seu Antunes está sem seus aparelhos auditivos e demandaria falar ainda mais alto e ainda mais pausado para obter uma resposta que nem é importante. Os dois últimos, por serem muito pesados para as suas costas já bem carregadas, eu sei. Sei porque outro dia ele ficou puto ao me pegar chorando, porque a dona Santa estava chorando, porque a minha mãe tinha dito umas coisas feias para a dona Santa, e foi até preparar um uísque, coisa que eu nunca tinha visto meu pai fazer na vida. Inteira. E bebeu. Seco, sem gelo. “Tudo nas minhas costas, tudo nas minhas costas. Ah, para com isso”, lembro dele dizer, cessando os choros com o inusitado do ato.

Tiro os olhos do Dog, que segue mandando água para dentro, e faço a melhor coisa que posso fazer no momento: passo por esse senhorzinho de 81 anos, dou um tapinha de afago no ombro, até roço a bochecha nele, sorrio meu verdadeiramente melhor meio sorriso e vou ver se minha mãe, uma senhorinha de 78 anos, já quer se levantar para tomar café. Na fase atual, com ovo cozido. Mesmo ela tendo nos dito que não aguenta mais ovo.

De fim de semana, sou eu sozinha para cuidar da dona Maria, nada de dona Santa para aliviar. Tem meu pai, mas ele ajuda mesmo agora é nos turnos de saída com o Dog, que alaga ou a calçada da frente do prédio ou a da entrada da garagem de duas em duas horas, mais ou menos, incluindo madrugada — turno que meu pai espontaneamente criou, assumiu e vem marcando no papelzinho onde anotamos os horários de xixi e medicação. O Dog voltou a mijar que nem quando era filhote, oito anos atrás: patas traseiras abertas, corpo projetado para a frente, meio acocorado, todo o xixi de uma vez. Minha mãe também. Que nem criança, digo. Faz xixi na fralda.

Financeiramente, não. Aí, a coisa é toda ao contrário. Seja dia de semana, seja dia de fim de semana, tem sido basicamente meu pai a suportar o tranco. Sendo que ele é o aposentado da casa e eu, a pessoa em idade economicamente ativa. Aliás, faço 37 anos em poucos dias. Mas é de antes da veia entupir que já venho levando uma vida diferente da tida como boa e de sucesso pela nossa sociedade — vulgo, a vida desejada para mim por meu pai ao longo de anos de investimento e orientação. Por isso mesmo, mal sabe ele que, não fosse a veia, eu estaria neste exato momento experimentando viver sem dinheiro ― estaria mesmo, Denise?

Eu ainda uso minha camiseta “Yes we share” com regularidade, visto ela agora, inclusive, e ainda sou apresentada, nas raras ocasiões em que saio, como alguém que repensa a nossa relação com o dinheiro, que se preocupa com o lixo que produzimos neste planeta e que foi a Paris por meio de colaboração. Mas a real é que mal sei eu o que achar de mim, de fraldas geriátricas enchendo lixões por aí e de dinheiro desde que a veia entupiu — desde que a pessoa significativa & bem-sucedida voltou também.

Muita gente pergunta se o Dog ficou cego por causa da idade. A veterinária da clínica particular disse que não. Que ele já é um senhor, mas “um sessentão muito do em forma”, e que o mais provável é ter sido algo autoimune: um ataque do próprio organismo dele contra o próprio organismo dele. Sei que atacou o meu também. Porque foi a coisa que terminou de me afundar.

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Republicado no Medium aqui.