Às vésperas do trimestre salva-vidas

Capítulo 1 da PARTE 1 de "A melhor próxima coisa agora"

pexels.com

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Eu tenho uma estratégia de sobrevivência: escrever este livro

Contar a minha história dos últimos três meses deste ano.

Agarro-me a isso feito náufraga a um bote, com a esperança de que ele me mantenha a salvo tempo suficiente até conseguir pisar um chão minimamente firme para alguém como eu nesse mundo capitalista. Alguém com sérias questões existenciais que sempre esbarram em dinheiro, ocupação, impacto ambiental e coração — não necessariamente nessa ordem, a depender do momento.

A questão de um milhão de dólares é que, no momento, estou em crise existencial profunda e generalizada: com dinheiro, ocupação, impacto ambiental e coração, tudo equivalente e ambivalente. Aliás, imagine, você, se, nove meses atrás, eu iria escrever algo como “a questão de um milhão de dólares”, para já aproveitar essa miserável mostra da minha atual falta de chão.

Nove meses atrás, eu estava me preparando para viver um ano sem dinheiro (dimensão Dinheiro — checked); me ocupava, basicamente, só do que sentia fazer muito sentido (dimensão Ocupação — checked); estava muito atenta para o melhor uso da água e da energia, cuidava do destino dos resíduos que gerava e nunquinha comprava nada “Made in China” (dimensão Impacto ambiental — checked); estava relativamente tranquila com não ter um companheiro nem ser mãe nesta vida (dimensão Coração — checked).

Até uma grande merda acontecer. 

A primeira delas. 

E pôr tudo à prova.

Foi com minha mãe. Foi com ela, mas impactou a meu pai, a mim e, ao que tudo indica, ao Dog. Porque foi com ele, o Dog, um Canis lupus familiaris, espécie domesticada pela nossa ainda antes da Revolução Agrícola, que a outra grande merda aconteceu. A segunda, mês passado. Foi com ele, mas impactou a meu pai, a mim e, ao que nada indica, à minha mãe. E você aí, por favor, bata na madeira para me ajudar a isolar mais grandes merdas de acontecer por aqui. Já bastam as pequenas todas que decorrem das grandes. Eis algumas pequenas merdas em mim, única experiência de que posso falar por de dentro da pele: dinheiro virou algo de extrema importância e passei a sentir vergonha por não ter uma fonte de renda de verdade; não sei mais o que estou fazendo da minha vida e bateu um puta medo de que eu possa perder a mão; tem dias em que secretamente abençoo a invenção das fraldas descartáveis e compro apetrechos “Made in China” para usar com a minha mãe, com o Dog ou com a pessoa significativa & bem-sucedida, simplesmente, porque sim; não é que eu estivesse tranquila com não ter um companheiro nem ser mãe um dia — está na minha cara, de novo, que eu nem sequer alimento um reservatório porreta de amor próprio para atrair um Homo sapiens masculino com quem eu saiba o que possa ser transbordar.

Setembro de 2016: é bem assim que me sinto

Ou seja, um “unchecked!…”, gritante e reticente, nas dimensões supracitadas em nove meses:

Dinheiro: de quase ativista da vida sem ele a mera anticapitalista incoerente;
Ocupação: de empreendedora de si a cuidadora, em pane, da mãe — mas também do pai e do Dog;
Impacto ambiental: de prol lixo zero a dissimulada geradora de resíduos;
Coração: de “oks” com estar só a “nada oks” com a própria escassez de amor próprio.

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Li numa dessas artes de Facebook|Instagram que o Dalai Lama acha que o planeta não precisa de mais pessoas bem-sucedidas, mas, desesperadamente, de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias e amantes de todos os tipos. Li também, não na internet, mas no livro “Sapiens, uma breve história da humanidade”, que foi a capacidade imaginativa que permitiu ao Homo sapiens saltar tão rapidamente e espetacularmente ao topo da cadeia alimentar, sem nem dar ao ecossistema tempo de se ajustar. Li também, não na internet nem em um livro, mas no material de um dos vários cursos de que participei nos últimos tempos, que a natureza sempre faz a melhor próxima coisa possível agora.

Pois foi de posse dessas informações, e como integrante da espécie Homo sapiens que sou, que formulei a estratégia de sobrevivência: ser contadora de história (Dalai Lama), a minha história (capacidade imaginativa, visto que meu mundo interior é vastíssimo), nove meses depois da primeira grande merda — sendo esta a melhor próxima coisa agora que sinto poder fazer (modus operandi da natureza). Veja só, você! Até completar um ano, o que bem coincide com o prognóstico dado pelo Dimas, ex-campeão estadual e brasileiro de judô, de a minha mãe voltar a andar (bônus sincrônico).

Agora, vem cá, sou só eu ou você também não fica se perguntando: como é que a nossa ascensão, nossa Homo sapiens, digo, assim tão rápida, pode ter sido mesmo a melhor próxima coisa na natureza? Não terá sido isso, tipo, uma grande merda?… E o capitalismo, fruto da nossa capacidade imaginativa? Grande merda, certeza!… Ou grandes merdas não passam de melhores próximas coisas agora disfarçadas de grandes merdas agora?… Vou seguir lendo o livro.

É setembro de 2016. Pouco antes do dia 21, meu aniversário. E, à parte a minha bússola interna estar bem desnorteada, equipo-me para o trimestre de travessia com a ansiosa expectativa de que a medicação comece logo a fazer efeito. Para me ajudar a navegar a história toda, a já vivida e a que virá. Porque tem isso, devo acrescentar, é em perfeita depressão ― de moderada a severa, segundo pontuei no teste com a minha psiquiatra ―, que eu começo.

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Republicado no Medium aqui.