Pessoa viva de volta de Paris. Muito obrigada <3 - # 01

Fiquei pensando por onde começar a relatar o que foram esses dias em Paris e a verdade é que, por mais que eu pensasse com o meu cérebro em como melhor conduzir isso, algo dentro de mim já havia decidido qual seria o ponto de partida. E decidido no momento em que o Boeing da KLM que me trouxe de volta a São Paulo tocou o chão. Foi ali que eu tive a resposta para um apelo que havia feito ao universo horas antes, lá em cima, abraçando minhas pernas na solidão tão cheia de gente ao redor da poltrona 43C.

(Tudo começou quando decidi ser 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :)' na rua, na Paulista com a Peixoto Gomide, para ir à OuiShare Fest 2015, maior evento mundial sobre a #EconomiaColaborativa. Fui, voltei e agora estou relatando como e o que foi.)

Muito confuso? Bom, é assim: para além de todo o conhecimento que fui buscar e o contato com pessoas incríveis fazendo a #EconomiaColaborativa mundo afora (o que consegui em abundância _/\_ ), Paris apertou o gatilho de uma coisa muito séria nesta pessoinha que vos escreve. Uma coisa, para mim, bem mais difícil do que ir para a rua pedir a ajuda de estranhos. Tipo, beeeeeeem mais difícil, mesmo. Houve um momento na viagem em que esta ficha caiu, retumbantemente. E eu entendi, com meu coração, que vou ter de fazer algo a respeito. Tenho de fazer, não tem mais jeito, não dá mais para escapar, #PerdeuDenize.

Pausa para o #PerdeuDenize: na real, é claro que não se trata de um #Perdeu, mas de um #LideComIssoMeninaVaiSerBomPraVoceCaraleo. Só que não é fácil. Não é, são sombras minhas, lugares que nem 13 anos de terapia deram conta de arejar e de jogar luz o suficiente para eu não ter mais tanto medo de adentrá-los. Eu tenho medo, eu tenho, um monte. Só que agora a bendita da ficha caiu, o universo me deu uma resposta clara e, basicamente, só está me restando um #SeViraAeDenize.
 

EXPLICADINHO, POR FAVOR.

Mais confuso ainda, né? Eu sei. Deve ser isso que acontece quando a gente escreve mais com o espírito do que com a mente. Vamos lá, vou tentar ser minimamente objetiva:

1. Eu tive um momento foda comigo mesma na viagem (o post de hoje não é sobre esse momento [a hora dele deverá chegar], mas saber que isso está na base do que pedi uma luz ao universo durante o voo de volta é importante);

2. Toda mexida, com medo do que tenho de resolver comigo mesma sem cair nos mesmos padrões e querendo muito algum sinal do mundo sutil sobre se eu deveria fazer ou não uma determinada coisa [não dá pra eu me abrir inteira aqui pra vocês, povo, mas tenho certeza que cada um aí reconhece em sua própria história um momento de incerteza sobre um passo a dar -- um daqueles passos que você está morrendo de vontade de dar, mas, no seu cérebro, sabe que não deveria dar. Então, é esse aí.]

3. Pedi uma resposta ao universo, pedi um "sim" ou um "não", um "sim" ou um "não" claro, pá, na lata; disse que não havia pressa e me trabalhei para não ficar louca-ensandecida pirando em decodificar cada coisinha sobre a qual eu pousasse os olhos a partir de então [tipo a combinação de números e letras de uma fileira do avião, sei lá].

4. Relaxei. Ou, ao menos, tentei. Como quem lança ao mar uma mensagem dentro de uma garrafa e confia que, a seu tempo, aquilo vai dar em algo e você vai saber. Vai saber o que precisava saber, vai fazer o que precisava fazer.

Pois bem. Deixei ir, desabracei minhas pernas e, sinceramente, não lembro mais o que fiz imediatamente em seguida. Fiquei lá, apenas voltando para casa. Na minha lembrança, o pedido rolou ainda no primeiro 1/4 do voo, de quase 12 horas de duração.

Comi, cochilei, comecei a ver um filme, parei, escolhi outro e assisti até o fim, ouvi músicas em holandês (já havia ouvido na ida e gostado :)), cochilei, ouvi as músicas em holandês tudo de novo, comi e bebi mais alguma coisinha (nossa, como dão comida pra gente no voo de volta, todinho acompanhado pelo sol -- saí de manhãzinha e cheguei no finzinho da tarde)...
 

QUAL A CHANCE?

Daí que no 1/4 final do voo, já depois de a gente perceber que a aeronave fazia os primeiros movimentos do procedimento de descida, resolvi explorar algo que havia me chamado a atenção no voo de ida, mas que havia me dado alguma preguiça. Era a parte dos "Audio books" do pacotão de entretenimento oferecido pela KLM aos passageiros. Acho que tem uns cinco títulos ali. De cara, descartei dois em holandês, um que parecia de ação/violência e outro de ficção científica. Pronto, havia me sobrado o livro de capa e título simpáticos: "A street cat named Bob -- and how he saved my life", de James Bowen.

Selecionei no menu e vi que a leitura levaria cerca de 3 horas. Decidi ouvir mesmo assim, até onde desse. Muito mais para ver qual era essa de um áudio book do que pela história em si. (Eu não conhecia em absoluto o livro nem a história do autor, embora eu tenha descoberto agora que existe versão em português e que até o Jornal Nacional já fez matéria sobre Bob e James.) Bom, foi a decisão mais acertada que eu poderia ter tomado.

Bob e James Bowen... yes! <3

Os 37 minutos de livro que ouvi foram suficientes para eu entender que James teve uma infância complicada, com pais separados, entre Inglaterra e Austrália; cresceu com várias questões de sociabilização; resolveu ir fazer a vida em Londres por volta dos 18 anos; passou mais de uma década usando vários tipos de drogas, incluindo heroína; acabou morando bastante tempo na rua; entrou para um programa de recuperação; conseguiu um teto precário, deu um jeito de ir se virando como músico de rua em Covent Garden... até que um dia, Bob escolheu entrar em sua vida (sim, o gato foi quem escolheu). James deixou. E tudo mudou.

Eu cheguei a chorar duas vezes, de tão tocante que a história *real* é. (E devo dizer que estava adorando a experiência de ouvir um livro.) Ainda mais por se tratar da história de um músico de rua. Não que eu me considere uma artista de rua -- imagina, na rua mesmo, fui 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ' apenas por 6 dias --, mas as falas de James sobre os olhares das pessoas (de apoio, de nada, de desprezo) e também sobre a generosidade delas (especialmente depois de Bob começar a acompanhá-lo, por vontade felina própria) ecoaram profundamente em mim. Estive pouco na rua, mas o suficiente para ter guardado no meu corpo e na minha mente as lembranças dessas interações.
 

AO TOCAR DO SOLO, UM "SIM"

Eu mal me dei conta de que estávamos prestes a tocar o chão. A narração dava conta do segundo dia em que Bob havia seguido James e ido com ele outra vez acompanhá-lo no trabalho. Eu, que já estava achando incrível ouvir "por acaso" a história de um artista de rua, não acreditei ao perceber que tocamos o solo imediatamente depois, no livro, de uma turista brasileira fazer carinho em Bob:

- Que gato bonita!, havia acabado de dizer o narrador, desse jeitinho errado mesmo, em português, tentando imitar a fala da brasileira para Bob.

Puf! E estávamos deslizando super velozes em desaceleração sobre a pista... ... ... Não me lembro se a narração foi logo ali interrompida, mas lembro de pensar, em fração de segundos:

- Caraca, qual a chance de eu tocar o solo brasileiro ouvindo um livro sobre a história de um artista de rua inglês, bem na hora em que talvez a única menção a algo relacionado ao Brasil aparece, em português e tudo?!... Que louco!... ... ... Peraí, peraí... peraí! Universo, essa é a minha resposta?! É a minha resposta, já?!?!

E sabe o que aconteceu? Sabe? O que aconteceu foi que um passageiro, aparentemente ali mesmo da classe econômica, começou a bater palma. E aconteceu que mais passageiros foram batendo palma. E aconteceu que o avião inteiro começou a bater palma por meio dos passageiros. E aconteceu que eu comecei a bater palma também.

... ... ... 

Foi um "sim". Foi um "sim". Só pode ter sido um "sim"...

Ok, não é incomum se bater palma na aterrissagem de voos de longa distância, especialmente na chegada ao Brasil (é hábito de brasileiro, será?). Mas também não é a coisa mais corriqueira na história da aviação comercial. Ou é? Ou super é e eu estava querendo muito um "sim"...

Não sei.

Sei só que eu dei o tal do passo. Não sei no que vai dar. Já meio que me arrependi, na real. No meu cérebro, me arrependi. Mas, bem, o James também não sabia no que ia dar quando resolveu acolher o Bob. Aliás, no cérebro dele, achava que seria um peso em sua vida já bem dura, em que mal conseguia manter a si mesmo. Surpreendeu-se

Sei lá, como muito do que vivi nessa jornada da 'Pessoa viva...', parece haver mesmo muito mais coisa entre o céu e a terra do que pode supor nosso cérebro. Eu me surpreendi muito. Quero que minhas sombras sejam surpreendidas, mesmo com todo o medo.

Que as palmas estejam me levado a uma boa direção.

_/\_

E aqui um vídeo curtinho da história do James e do Bob, pra quem quiser saber mais ;) <3