Pessoa viva indo para Paris - Day # 02

04/04 - Tenho vontade de dizer que aconteceu de tudo ontem na uma hora em que fiquei parada com balões na Paulista com a Peixoto Gomide, das 16h19 às 17h19. Mas, como ontem foi apenas o 2o. dia, acho que ainda poderei ver e passar por muito mais coisa. Vou contar na ordem:

(Como começou: leia aqui.)

- Antes mesmo de eu me ajeitar em cima do balde, às 16h18, uma moça acompanhada de um amigo me deposita algumas moedas no chapéu. Agradeço boba e no supetão, não esperava. Acho que é ali que o amigo se imbui do impulso que faltava e atira R$ 0,50. Poxa, agradeço tudo de novo e ofereço o post-it que bolei de agradecimento, um desenho tosquinho da Torre Eiffel. Eles dizem que não precisa e me desejam boa sorte. Foi lindo.

- Um senhor grita irônico, mas bem-humorado: "Assim eu também quero!" Grito de volta dizendo para ele ficar ali comigo e, assim, poder ir também. Ele dá tchau e continua caminhando. Fico um pouco abalada, entendo que ele quis dizer que é moleza ficar ali pedindo ajuda para ir a Paris. Entendo que ele quis me mandar ir trabalhar e tal. A questão é que não tolero mais fazer nada que eu não queira (eu quis essa experiência que vivo hoje na rua, ainda em 2013; não sabia que seria como está sendo, mas é algo que desejei e já está me enchendo de vida viver, já está me ensinando muito... :) ) em troca de dinheiro exclusivamente. Eu quero ser feliz hoje, todo dia. Não em intervalos, nas férias incríveis de Instagram em Paris.

- Aí, num belo momento, percebo uma pessoa conhecida se aproximando. O Jean, marido da Mari. A-i-m-e-u-d-e-u-s!, A-i-m-e-u-d-e-u-s!, A-i-m-e-u-d-e-u-s!, a primeira pessoa que me conhece a me ver nessa situação. "Mas, calma, Denize, que situação? Qual o demérito disso?", antecipa-se ao meu trollador interno o meu 'abraçador'. (Ufa, obrigada, 'abraçador', nem sabia que você existia, apareça mais vezes!) Soltamos uma quase gargalhada, Jean e eu, nos cumprimentamos e ele comenta que havia visto um post meu no Facebook sobre isso que estou fazendo. Talvez este. Ok, até que não doeu encontrar um conhecido =) Conversamos qualquer coisa sobre onde eles moram hoje, que não é mais a casa onde fui uma vez para uma agradável tarde com feijoada, e seguimos nossas vidas. Não doeu mesmo \o/

- Um rapaz para, saca o celular e pergunta se pode tirar uma foto minha. "Claaro!", digo. Tira, sorri e me pergunta se tenho Instagram. Digo que sim, que ele me acha como @denizerguedes, mas que não sou muito ativa por lá. Ele pisca, deseja boa sorte e vai embora. Devo dizer que dá para entender perfeitamente quem cobra para tirar foto. Eu que estou sendo 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda <3 :) ' sendo eu mesma, só que com balões, uma malinha, um balde, um pano improvisado sobre o balde, um quadro e um pouco de maquiagem já acho um puta de um trampo estar ali desse jeito, imagina os profissionais, cujo trabalho mesmo é esse? Mas é isso, eu entendo apenas. Não vou impedir alguém de me fotografar. Estou na chuva para me molhar, estou na chuva para ver os raios de sol e os arco-íris que as pessoas desejarem mostrar. E tá tudo certo.

- Um outro moço passa e para na esquina como se fosse atravessar. Mas não atravessa.  Coloca a mão nos bolsos e fica procurando algo em um, em outro, nos compartimentos da carteira. Enfim, vira-se e caminha até mim. Eu meio envergonhada, meio dando vivas, toda viva por dentro. Ele deposita moedas. "Vai dar tudo certo. Eu sei como é isso. Boa sorte, porque vai dar tudo certo, viu?" Agradeci super tocada, até esqueci de oferecer a Torre Eiffel. Fiquei os próximos minutos imaginando se ele sabia o que era ser estátua viva (no meu caso, uma beeeeem mequetrefe; eu fico paradinha mais como forma de lidar com a vergonha do que por saber o que estou fazendo), o que é pedir ajuda para conseguir ir a um lugar, o que é estar em uma posição vulnerável na rua... Foi bonito viver isso com esse moço :)

- Noto menos sorrisos que no dia anterior. Não sei se sou eu que estou menos firme ou se as pessoas que não estão a fim de gracinhas bobas. Mas, ok, quem está na chuva, né?, é para isso mesmo. Fico uns bons 20 minutos sem receber colaboração alguma, apenas sentindo a sola do pé doer, trocando o mais imperceptivelmente possível o peso de um pé para o outro, em cima das extremidades do meu balde retangular, partes em que se fica mais estável. 

- Uma senhora passa e diz: "Me leva junto!" Também havia uma ponta de ironia ali, embora ela estivesse rindo. (Ainda bem que ela e o outro senhor disseram essas coisas no bom humor. Sei que alguém me mandando ir trabalhar, com desprezo mesmo na voz e no olhar, é algo que pode quebrar minhas pernas nesse começo. É cama feita para o meu trollador interno deitar e rolar. Portanto, se você tiver intenção de fazer isso, eu lhe peço, por favor, faça de um jeito que não me desmorone, tudo bem?)

- Enfim, uma moça passa, lê o quadro, sorri, para uns passos adiante, mexe na bolsa e volta com algumas moedas. Agradeço muito, ela estava me liberando para dar uma mexidinha maior. Ela pergunta se vou a Paris a passeio, a trabalho... Digo que vou para a OuiShare Fest, feira que reúne a comunidade da Economia da Colaboração, que me interessa muito. Ofereço a ela o post-it. Ela também não aceita e também me deseja boa sorte na viagem. Que posso eu fazer se as pessoas não querem o post-it? Aceitar, né? Sinto como se as pessoas sentissem que estão colaborando ainda mais comigo. Elas querem me dar aquela ajuda e ponto, tá tudo certo. Como se o contato estabelecido comigo ali na hora em que me dão algum dinheiro já fosse a troca em si... Quero refletir mais sobre isso... Daí, não é que, nos segundos em que a moça diz não precisar do post-it, um rapaz se aproxima, deixa algumas moedas, sorri e já se vai? Quase não consigo olhá-lo para agradecer. "Muito obrigada!", grito. _/\_ Como disse, quero refletir mais sobre isso.

- Um mendigo se aproxima e para na minha frente. Noto que ele se concentra em ler o quadro. Quando termina, solta uma risada, me olha e vai embora faceiro. "E eu quero ir para os Estados Unidos! Vou para os Estados Unidos!", saí gritando. Houve uma poesia ali, para mim houve.

- Dois garotos bem maltrapilhos, que me pareceram mesmo viver na rua, param também. Um deles, segurando uma caixa de bombons, lê o quadro em voz alta. Termina e me pergunta olhando nos olhos. "E onde fica Paris?" Digo que fica na França. "É muito caro ir pra lá, é?" Digo que é um bocado, pelo menos, R$ 2,5 mil de passagem de avião, ida e volta. "Apaporra!!! Isso tudo?!" E é nessa hora que algo absolutamente incrível acontece, algo que eu nem sequer cogitava ser possível acontecer durante todo o período em que eu vá persistir nessa empreitada. O outro garoto põe a mão no bolso da bermuda suja e me deposita duas moedas de R$ 1. "Eu vou te ajudar." Fico sem reação. Só alguns segundos depois agradeço. "Poxa, muito obrigada, muito obrigada mesmo..." Cogito perguntar se ele tem certeza, mas não pergunto. A verdade é que não cabia, não cabia naquele nosso momento. Ele era apenas uma pessoa querendo ajudar outra pessoa. Éramos o que somos, iguais. Foi o momento mais intenso até agora. E esse foi apenas o 2o. dia. (À noite, antes de dormir, mal acreditei no trecho que li no livro da Amanda Palmer.. Olha só:)

- O Tião, meu primeiro anjo, aparece. Ele havia me ligado mais cedo para saber como eu tinha ficado no dia anterior e dito que, se desse, passaria para me dar um abraço. E foi o que fez. Me deu um abraço. Bem apertado, cheio de endorfina para mim e para ele =) Me contou sobre sua cachorra, de 17 anos, que está doentinha e fez com que ele ficasse cuidando dela boa parte do dia, e que, naquele momento, estava indo visitar uma amiga que estava triste. Um cuidador, o Tião. Um lindo cuidador de vidas <3 E me deixou uma nota de R$ 2. Agradeci, quase tive o ímpeto de dizer que não precisava. (Quero refletir mais sobre isso também.) Mas só disse que havia pesquisado que o Consulado da França fica ali na Paulista também, na quadra seguinte, só que à direita. "Tô pensando em ficar lá na frente também, Tião!" Ele se divertiu.

E meio que foi isso esse segundo dia. Talvez um encontro tenha sido antes ou depois de outro. Relatei como me lembrei, como senti. Poxa, e senti muito. Avante!

 

ARRECADAÇÃO 04/04 NA PAULISTA: R$ 9,30
AJUDA DA DONA DEISE: R$ 3,30

TOTAL EM 04/04: R$ 90,75 
META ATÉ 16/5: R$ 3,5 MIL

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Como algumas pessoas têm me pedido, vou deixar aqui dados para quem queira colaborar. Por favor, me mande um e-mail para que eu possa lhe agradecer, ok? =) É denize.guedes@gmail.com _/\_

Denize Ramos Guedes
CPF: 287769198-54
Banco: Bradesco
Agência: 0895
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