Pessoa viva indo para Paris - Days # 16 e 17

"Uma trombada filosófica". Assim foi que Dori definiu nosso encontro na noite de segunda-feira (20/04), na Paulista com a Peixoto Gomide. Eu, de "Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ', ele, de autor de um livro que não é para ser lido, e Carlos Eduardo, que eu havia conhecido na noite anterior, de cantor e compositor ora morador de rua. Três pessoas improváveis de se conhecer. Muito menos de passar mais de três horas conversando, de pé. Não fosse a essência, não fosse o peito grato, não fosse estarmos ali ab imo pectori.

(Quero ir para a OuiShare Fest, que vai reunir a comunidade da Economia da Colaboração em Paris, de 20 a 22 de maio. Mas não tenho dinheiro. Inspirada por Amanda Palmer [meu caso de amor com ela vem desde 2013, ó!] e por sua arte de pedir, resolvi ser 'pessoa viva' [já que não sei ser 'estátua viva'] e... pedir ajuda. Começou assim, em 2 de abril.)

Ab imo pectori é uma expressão em latim que quer dizer "do fundo do peito", "do fundo do coração". Aprendi nessa noite. Aprendi com Dori. Carlos Eduardo também não conhecia. Também aprendeu ali com Dori. Mas ele, Dori, se aproximou de nós -- de mim e de Carlos Eduardo, que, por sua vez não fazia nem 30 segundo que estava ali papeando ao meu pé, que, por minha vez, não fazia nem um minuto que havia subido no balde -- foi falando em francês.

"Et ce que vous voulez faire à Paris?" <=== Assim que o Google Tradutor me disse que é francês para "E o que você quer fazer em Paris?" (Dori, se estiver lendo, foi um prazer :)) Só que eu não falo francês, o que disse a Dori, do modo mais simpático que pude, com a negativa que aprendi com meu pai, seu Amaury amado da silva, "je ne parle pas français". Para não perder o encanto estrangeiro, mandei em inglês mesmo as respostas para o que eu achava que era a pergunta (e era): vou a um evento de Economia da Colaboração, porque quero ser instrumento do mundo mais bonito, coisa e tal. Presençassa de espírito, Carlos Eduardo engatou o balançar afirmativo de cabeça, no melhor da linguagem universal de corpo "confia nela aí, parceiro". E Dori, que aceitou o jogo, gastou a língua enrolada -- mas sem perder a rabugice típica de quem prefere o francês.

Três perdidos numa noite na Paulista... | Imagem gentilmente enviada pela Helen Souza, do @verbointrinseco

Queria conseguir pôr aqui na tela tudo o que foi essa noite. Difícil. Difícil articular palavras que deem conta de uma "trombada filosófica". Ainda mais uma de três horas, de pé, no vento, com desconhecidos tão conhecidos: porque espelham a gente mesmo, porque expõem o que nem nossos conhecidos talvez não conheçam de nós... Difícil. Até porque, a trombada, se valer para Carlos Eduardo e Dori o que sinto desde tal impacto, ainda se expande no decantar de tudo o que foi dito, ouvido, sentido, criado, aprendido, apreendido, desprendido e tantos idos que ainda nem sei. 

E tem mais. O intento fica ainda mais difícil com o pedido que Dori me fez: "Não jogue tanta luz sobre mim...". Foi depois de eu falar (àquela altura, já conversávamos em português havia muito, claro... o inglês não durou mais que três minutos de exame de terreno) que queria voltar logo para casa para escrever sobre o encontro. (<=== Bobinha, eu, sempre achando que vou abrir minha cartela de letrinhas e sair escrevendo fácil. Que nada. Pego letra, solto letra, pego letra, solto letra, pego letra, solto letra para dar conta dessa trombada desde então.) Dori tem um livro que não é para ser lido, lembra? É verdade isso, do livro. E, se não é para ser lido, não é para se jogar luz... Mas como usar minha cartela só para sombrear Dori?...

Vou para Carlos Eduardo, então. Ah, Carlos Eduardo quer luz, Carlos Eduardo precisa de luz. Embora ele não tenha revelado ali com todas as letras dele, ele pertence, literalmente, ao mundo das luzes. Uma circunstância atual, porém, tem deixado Carlos Eduardo na escuridão: ele está morador de rua. É, morador de rua. Dividindo uma barraca ali pertinho da "trombada filosófica", bem na calçada do Parque Trianon. Só que de seu peito, ab imo pectori, sai uma luz tão potente que ficou iluminando a mim e a Dori em várias ocasiões durante nosso longo breve encontro. 

(Dori, todo mundo: Carlos Eduardo tem 36 anos, é de Niterói e está em SP faz quatro semanas em busca de se tornar o cantor e compositor que, em seu peito, já é... sempre foi. Tem mais de 200 músicas compostas -- cantou duas para mim, com uma levada que me lembrou Claudinho e Bochecha. Mas viveu até aqui como chapeiro, pintor, pedreiro, encanador, auxiliar de qualquer coisa, faz-tudo em geral, e decidiu que chega, chegou, que não veio aqui para este mundo para isso e que vai viver o que seu coração pede. Conseguiu já, com a ajuda de um moço, gente como toda gente, uma caixa de som e um microfone de alta qualidade para começar a se apresentar ali mesmo na calçada do parque. Ficou tão empolgado que esqueceu de dizer ao moço que se sente mais seguro se tiver também um pedestal para o microfone [alguém tem um por aí??]. Mas tudo bem. Tudo bem mesmo, nem ter tido o celular roubado na noite de chuva que dormiu debaixo da fachada da Marisa tirou sua confiança. Dori, depois que nos despedimos, acabei me oferecendo para levar a caixa para casa e dar a carga de 24 horas de que precisava. Trouxe. Já testei e é boa mesmo. Acho que Carlos Eduardo é bom mesmo. A princípio, ele vai se apresentar nesta sexta-feira, 24/4, à tarde. Quando eu souber uma estimativa de horário, atualizo aqui. Vamos assistir, vamos?)

Já sei! Um trecho do livro da Amanda Palmer cabe aqui para tentar dar um vislumbre das cores que entraram em jogo na "trombada filosófica". Porque acho que foi disso que se tratou, de dores:

Foi isso. Segunda à noite foi sobre doer. Foi sobre cada um sentir e compartilhar sua dor, sua percepção ou não sobre se dói o suficiente ou não. Mesmo que nas palavras escondidas de um livro que não é para ser lido (ainda?). Mesmo que de cima de um balde com um quadro com post-its coloridos na frente, mesmo que dormindo na rua com estrelas que iluminam. 

E sei lá, sabe? Trombar é preciso: para que mais estaríamos na vida senão para trombar, para sermos impactados e impactar vidas? Só existe o choque (o caminho, o processo, o movimento). Viver é preciso. Sobreviver não é preciso... quando já se dói o suficiente. Até porque dores vêm e vão, vêm e vão, vêm e vão ao longo do tempo que nos é destinado. Como as cores, as luzes e as sombras.

Trombemo-nos.

Eu, Carlos Eduardo e Dori (que estava tirando a foto, mas que não consegui não incluir de algum jeito :))

----------

ARRECADAÇÃO EM 19 E 20/04 NA PAULISTA: R$ 16,15
COLABORAÇÃO NA CONTA: R$ 150
AJUDA DO SEU AMAURY E DA DONA DEISE: R$ 158,75

TOTAL EM 20/04: R$ 1.248,09 
META ATÉ 16/05: R$ 3.087,82

VEJA DETALHES AQUI NA PLANILHA!

-----------

Como algumas pessoas têm me pedido, vou deixar aqui dados para quem queira colaborar. Por favor, me mande um e-mail para que eu possa lhe agradecer, ok? =) É denize.guedes@gmail.com _/\_

Denize Ramos Guedes
CPF: 287769198-54
Banco: Bradesco
Agência: 0895
Conta Poupança: 0023145-2