Pessoa viva indo para Paris - Day # 15

E, então, aconteceu. Numa tarde de sexta-feira, de pré-feriado prolongado. Numa tarde de Paulista cheia e mais barulhenta que o habitual, com dezenas de milhares de professores em greve #TodoApoio. Numa tarde mais na vida da cidade que não para, da cidade do trabalho, da cidade da elegância discreta do tempo que é dinheiro. Aconteceu: o olhar de absoluto desprezo da mulher que me encarou, a centímetros de distância, balançando negativamente a cabeça. Para mim, a 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ', que ela acabara de identificar no quadro aos meus pés.

(Quero ir para a OuiShare Fest, que vai reunir a comunidade da Economia da Colaboração em Paris, de 20 a 22 de maio. Mas não tenho dinheiro. Inspirada por Amanda Palmer [meu caso de amor com ela vem desde 2013, ó!] e por sua arte de pedir, resolvi ser 'pessoa viva' [já que não sei ser 'estátua viva'] e... pedir ajuda. Começou assim, em 2 de abril.)

O comichão que, àquela altura, tomava conta de todo o meu estômago e subia para lacrimejar meus olhos me fez começar um diálogo com ela. Quer dizer, diálogo apenas na tentativa. Ela não me dirigiu palavra. Somente o olhar, meneios ácidos de cabeça e bufos.

- A senhora acha que eu não deveria estar aqui. A senhora acha que eu deveria ir trabalhar. É isso?

- (Bem devagar, faz que sim com a cabeça e cerra um pouco as pálpebras, como quem mira melhor o alvo, me fuzilando, bem dentro dos olhos. Repara no quadro novamente, balança a cabeça, solta o ar pelo nariz num soco e olha de volta para mim. Vejo desprezo e desaprovamento.)

- Isto aqui nem pode ser considerado um trabalho?

- (Mesmos olhares, mesmos movimentos, mesmos bufos, só que um pouco mais perto.)

- Tudo bem.

Tudo bem. Mais ou menos tudo bem, na real. Mais porque não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer que a fizesse ter outra impressão de mim. Seus olhos deixavam claro que, em sua visão de mundo, não cabe gente como eu. Menos porque, dentro de mim, não havia ficado nada bem. Nada. Aquilo me jogou esvaziada ao chão e, em milessegundos, me fez repassar a minha vida (tal qual dizem ocorrer quando a gente acha/sente que vai morrer?) de não conformidade com um tanto de coisa neste mundo. Que bosta você está fazendo, Denize?, comecei a me dizer, comecei a querer chorar. Nisso, ela já estava se afastando. Não sem antes chamar a atenção de um homem que passava ao seu lado, apontando para mim e fazendo com a mão o sinal, talvez universal, de dinheiro. Sabe? Ei! Não é pelo dinheiro! Não é só pelo dinheiro! Tem mais envolvido nisto aqui! Eu não sou uma 'pegadora de trouxa', se é o que você está pensando!, não sou!!, eu lhe dizia em pensamento, já com algumas lágrimas saltando de raiva, de vergonha, de revolta, de humilhação, de desolação...

E foi bem aí que veio o Renato. Coisa de milessegundos depois, eu limpando as lágrimas e ele deixando R$ 5 no chapéu. "Boa sorte, moça". Respirei fundo soltando um bocado das sensações ruins que aquela senhora havia me deixado. Desci do balde e perguntei se lhe podia dar um abraço. E pude. E foi tão, tão bom. Tão reconfortante, tão na hora certa. Tão grata fiquei... Renato foi embora e, pouco depois, veio a Ana. E me deixou 10 euros (tipo, 10 eu-ros, d-e-ze-u-r-o-s, DEZ EUROS!! :o ). "Para dar sorte." Pooooxa. Abracei a Ana também. E fiquei lá meio besta em cima do balde. E veio a Jeniffer. Com três moedas de R$ 1. "É o que eu tenho, mas boa sorte, moça". Obrigada, obrigada, obrigada! Abracei a Jennifer também. E veio o João. "Você precisa de ajuda, moça? Eu vou te ajudar!", depositando R$ 2 com um sorriso terno e bem-humorado. Perguntou se podia fazer uma foto minha. Claaro! E lhe tasquei um abraço também. E veio a Luiza! Com R$ 2. Abraço, abraço, abraço! E veio a Marcela! Com algumas moedas. Abraço, abraço, abraço! E veio o Nelio Junior! Com R$ 5 e gravando um vídeo em seu celular. "Olha essa pessoinha aqui no meio da Paulista", foi falando. Abraço, abraço, abraço! E veio uma moça, que não deu tempo de perguntar o nome, bem no meio do vídeo do Nelio. Com algumas moedas. Abraço!...

E eu era eu de novo, em todo o meu tamanho original de um metro e quarenta e nove e meio. Ufa.

Cada uma dessas pessoas foi me enchendo de volta, feito um balão esvaziado que retorna ao ar. De repente, eu entendia que, talvez, para cada olhar de desprezo e desaprovamento, existam 2, 3, 4... 8 olhares de compreensão, de colaboração, de compaixão, de coexistência, de cuidado... de coração.

Tem um trecho no livro da Amanda Palmer que me causou grande impacto, que me faz pensar, desde que li, se estou alinhada com esse espírito quando saio para a rua, que me faz pensar por que a gente simplesmente não assume logo que o paradigma de competição está nos matando, enquanto sociedade, que me faz pensar sobre o que pode nos salvar, enquanto espécie. Ó:

Percebe? Percebe? Temos o poder nos ajudar mutuamente.

Foi assistindo ao documentário I am que eu soube que Darwin usa 95 vezes a palavra "amor" e apenas duas vezes a expressão "sobrevivência do melhor" -- ou "sobrevivência do mais forte", como a gente aprende na escola -- em seu livro A descendência do homem. 95 vezes para 2 vezes. 95 para 2... É ou não é para colocar a gente para pensar? 

A colaboração está gravada no nosso DNA. Somos uma espécie social. Dependemos uns dos outros. Não sobreviveríamos sós nem por um dia se não fossem os cuidados (pausa para a palavra "cuidado"... <3 ) dos nossos pais. Os cuidados de outros seres humanos. Os cuidados humanos. Eu penso que, se da mesma forma que está gravado em nosso DNA a luta pela sobrevivência, essa luta também anda lado a lado com a colaboração. Com... amor.

Sobreviver não significa exclusivamente competir. Isso, entendo eu, está no DNA do capitalismo (que está no DNA da visão de mundo predominante do nosso tempo histórico). Estão aí os números de desigualdade aviltantes que ele gera -- amparado peledecordeiramente em sua doutrina do autointeresse que melhora a vida de quem está ao redor do "mais forte". Bem, se melhora a vida de quem está ao redor, como explicar que 67 pessoas detenham a riqueza correspondente à de 3,5 bilhões de pessoas (pausa para a palavra "bilhões"... sim) do mundo? Faz algum sentido?

A senhora que me desprezou, imagino, pensa que eu deveria "dar duro para crescer na vida, ganhar dinheiro e ir para Paris com o suor do meu trabalho". Esse poderia ser um caminho, claro. E eu já estive nele. A questão é que, de acordo com as forças que me constituem, eu não sei se eu ainda sobreviveria nele. Não, eu sei que eu não sobreviveria mais. I've been there, don't wanna go back.

De alguma maneira, faz um tempo, eu resolvi me oferecer ao mundo para passar as mensagens em que eu acredito. As mensagens que me saem genuínas porque as sinto genuínas. Acho que ser 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ' tem muito mais a ver com isso do que com querer ir para Paris em si. Assim como não é pelo dinheiro, não é por Paris. (Eu conheço Paris. Aquele outro caminho já me levou para lá um dia.) É por todo um movimento e uma comunidade de Economia da Colaboração que vai se encontrar lá na OuiShare Fest. É por todo um movimento e comunidade que entendo ser o que pode nos salvar deste mundo de crescimento infinito em um planeta finito. É por isso. É pela colaboração, pela compaixão, pelo cuidado. É por servir a um mundo mais bonito, maneira como eu intuo ser a que melhor me ajuda a ajudar neste planeta. É por isso.

Então, gratidão ao Renato, à Ana, à Jeniffer, ao João, à Luiza, à Marcela, ao Nelio Junior, à moça que não deu tempo de pegar o nome. Gratidão por encherem meu chapéu, meu coração, minha alma e, assim, devolverem minha mente ao estado em que lembro por que estou no mundo do jeito que estou. Para servi-lo.

(E obrigada à Thais Zimmer e ao Lucas Baptista, que estiveram comigo antes de tudo isso e me trataram de igual para igual, com gratidão, como iguais que somos... <3 )

<3 _/\_

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TOTAL EM 17/04: R$ 923,19 
META ATÉ 16/05: R$ 3.087,82

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Como algumas pessoas têm me pedido, vou deixar aqui dados para quem queira colaborar. Por favor, me mande um e-mail para que eu possa lhe agradecer, ok? =) É denize.guedes@gmail.com _/\_

Denize Ramos Guedes
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Banco: Bradesco
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