Pessoa viva indo para Paris - Days # 10 e 11

Acordei domingo e ontem (12 e 13/04) programada para fazer um montão de coisas. E fiz. Só que sem colocar o pé fora de casa. Nos dois dias. O que teve um lado frustrante, já que uma das coisas era ir para a Paulista com a Peixoto Gomide ser 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ' pós-protestos, num dia, e no fim da tarde, no outro. Mas teve o lado de iluminar (com aprendizado, espero!) o tanto de "aba" que ando abrindo na minha vida. E que preciso cuidar. Ou, ao menos, ter consciência da responsabilidade que a "abertura" delas traz.

(Quero ir para a OuiShare Fest, que vai reunir a comunidade da Economia da Colaboração em Paris [ahá!], de 20 a 22 de maio. Mas não tenho grana. Inspirada em Amanda Palmer [meu caso de amor com ela vem desde 2013, ó!] e em sua arte de pedir, resolvi ser 'pessoa viva' [já que não sei ser 'estátua viva'] e... pedir ajuda. Começou assim.)

Acho que dois posts meus no Facebook dão conta de (tentar) conduzir o passeio pelas abas. Vamos ao primeiro, de domingo:

"E quando você se pega pedindo desculpas pra couve porque ela tá começando a estragar e nem tem coragem de encarar a pobre da rúcula? E, pra piorar, você ainda tem de liberar espaço na composteira pra, pelo menos, as minhoquinhas se nutrirem? Só que hoje tá difícil de dar tempo? Bom, dá um jeito, Denize."

Várias coisas aí. E meu coração realmente se apequenou diante da couve e da rúcula. Acho que até batendo mais baixo para não chamar tanto a atenção delas para mim. Eu, essa criatura que deveria cuidar (<== cuidar, vê?) delas. Para que elas pudessem, então, cuidar de mim. 

Não faz muito tempo, passei a integrar um coletivo de consumo de alimentos orgânicos, trazidos toda santa semana para a cidade por produtores locais. É um projeto lindo apoiado pelo Instituto Auá, chamado Banca Orgânica. É alimento fresco e sem veneno semanalmente em SP -- apoiando a agricultura familiar, tirando intermediários do circuito (e todo o impacto ambiental que causam em busca do lucro pelo lucro) e nos reconectando aos ciclos da terra (com alimentos de acordo com as estações do ano).

Tudo lindo. Não fosse o fato de eu ter aberto essa aba e ter deixado ela lá, assim, só no modo "beleza, daqui a pouquinho eu lido com isso". Só que "daqui a pouquinho" não foi suficiente para a rúcula. E quase não foi para a couve, para dois pés de alfaces e para seis bananas prata. Graças à minha nossa senhora da boa intenção orgânica, porém, foi suficiente (por um fio de cabelo, praticamente) para o restante de duas (duas!) semanas de cesta à minha espera. Tomates, cenouras, berinjelas, cebolas roxas, alho poró, batatas bolinhas e um tanto de couve e alface (ave maria, como rendem!) descansam em relativa paz na geladeira.

(O drama maior reside na Vila Madalena. É lá o meu coletivo de consumo, uma vez que ainda não conseguimos reunir membros suficientes aqui nos Campos Elíseos, no centro, onde moro. E é um trampinho buscar a cesta lá. Mas, ok, quem abriu a aba que cuide, né? É. Agora, se você é da região central e quer entrar nessa, por favoor!, me escreva: denize.guedes@gmail.com! :))

Resultado do domingo: passei o dia de pé nos, sei lá, menos de 2 m2 da minha cozinha, fazendo couve refogada; suco verde de couve; cubos de gelo do suco (dica de ouro da minha prima Cristina); arroz integrar com cenoura; salada de alface, tomate e cebola; farofinha de tomate, cebola e fibra de couve; doce de banana... e comendo e guardando direitinho a produça toda.

Obviamente, escureceu e eu continuava nessa função.

Além de não ir à Paulista, deixei de ir na celebração de 1 ano da Laboriosa89, casa colaborativa na rua Laboriosa, 89, incrível e importantíssima na minha jornada desde que tomei contato com a Economia da Colaboração. Mas não necessariamente perecível, como couves e rúculas... Rúcula! Não consegui salvar, #humpf!, estava inteira apodrecida. E não deu tempo de abrir espaço na composteira... Outra aba importante que preciso cuidar mais, pelo bem das minhoquinhas (que estão bem, mas podem ficar melhor), do composto orgânico e de toda a santa vida em cadeia (<=== que é a vida toda, mas a lógica industrial, linear, fez o favor de nos apartar dela).

Ontem! Olha o post no Facebook, concluindo o dia:

"Eu quero abraçar o mundo. Mas meus braços são proporcionais ao de uma pessoa de um metro e quarenta e nove e meio (no caso, eu). Haja abraço de formiguinha, ‪#‎humpf‬."

Sobre desejos de abraçar o mundo | Foto: unsplash.com

Às 16 horas, depois de ter postado como foi o Day # 09 e de ter resolvido pendências de um trabalho que está para ser finalizado, desliguei o computador e fui me arrumar para ir à Paulista. Entrei no banheiro e me deparei, pela 54a. vez, com a cestona de roupa suja, que, depois de uma semana de dor de garganta, torcicolo e influência de trolls, transbordava. Do lado dela, sabão líquido para lavar roupa e amaciante, que aprendi a fazer numa oficina que fui há umas três ou quatro semanas, seguiam aguardando pacientemente a hora de entrar em ação.

Vê? A outra aba? Eu aprendi a fazer produtos de limpeza que não agridem a natureza, coisa linda de deus -- especificamente, o sabão de lavar roupa, o amaciante, detergente, desinfetante, aromatizador de ambiente e tintura de eucalipto (que usa no desinfetante) -- e não estava fazendo nada com isso. E havia um montão de roupa, por exemplo, para ser limpa. Dependendo de mim.

Antes de dar pau, que nem navegador com 500 mil abas abertas e rodando, tive a brilhante ideia de descer na lavanderia comunitária do prédio (uma das coisas que me atraiu a vir morar aqui, por sinal) e pôr a bendita da roupa para lavar. Foi o que fiz. No elevador, desci pensando que ainda precisava escrever um texto que prometi para um colega do Estaleiro Liberdade, que quero entrar em contato com um tanto de lugar por conta dessa história de Paris (explico em outro post, já tô com vergonha deste), que nunca escrevi no A quem interessar possa um texto que me propus a fazer sobre suicídio, que preciso escrever aqui para este espaço uma relação de plataformas que são pura Economia da Colaboração (para uma amiga que está colaborando com Paris também), que eu tinha de ir mesmo para a Paulista, que tenho 300 mil fotos de lixo alheio recolhido na rua para postar no Deslixe-se, que tenho uns 50 mil corações para postar no Coisas que queriam ser coração, que invento! muita! coisa!... que, ao menos, eu tinha faxinado o banheiro com o desinfetante natural no dia anterior (teve isso no domingo tb, no banho!).

Bom, foi tanta roupa mesmo, que precisei de duas máquinas. E ainda deixei as brancas de molho (que hoje, ou amanhã cedo tenho de terminar de lavar: valei-me, minha nossa senhora da arrumação ecológica!). Enquanto as máquinas batiam, fui com a Leila, que trabalha aqui no prédio, regar a hortinha daqui também (<=== outra aba!, já que eu sou uma das pessoas que bate o pé pela hortinha do prédio). Enquanto as máquinas, nessa hora, já secavam, fui com a Leila ver as plantas da churrasqueira, que, segundo ela, não estavam nada bem. Engano dela, estavam péssimas (seguem estando, com cochonilhas :-/ ). Nessa altura do fim do dia, resolvemos chamar o Cauê, morador que também tem essa aba aberta na vida, das plantinhas e tal. Combinamos de nos revezar no cuidado.

Obviamente, escureceu e eu continuava nessa função.

Terminei o dia frustrada, taí o post do abraçar o mundo que me ajuda a contar a história. Ainda mais que ontem, pela primeira vez, me peguei pensando sobre Paris no seguinte termo: meu, a coisa tá ficando muito séria, muito séria mesmo.

Foi ontem que vi um depósito incrível de uma grande, estupenda, linda amiga que mora em Brasília. Foi ontem que chegou a notícia que uma amiga do meu pai deu a ele um dinheiro para mim. Wow.

Comecei essa história de Paris no puro impulso, sem fazer uma conta mais séria. Só pesquisei no Submarino Viagens o preço de passagem ida e volta (em torno de R$ 2,5 mil) e somei R$ 1 mil, pensando em alimentação e transporte lá. Nem dividi R$ 3,5 mil pelo número de dias que me separava da OuiShare Fest até então. Se tivesse feito, desconfio que não teria começado nada disso. Não pareceria nem um pouco viável...

O fato de simplesmente ter pego na mão do livro da Amanda Palmer e da ideia que um dia eu já havia tido de ir para rua deram a ignição num processo absolutamente de cair o queixo... que tem alimentado meu coração e intrigado meus neurônios, na tentativa de racionalizá-lo.

Acabou que essa aba, o impulso que quer aterrissar na OuiShare, emergiu. E hoje é a principal aberta. Tenho que cuidar dela, cuidar como merece. Tudo importando aí, os trolls, a dificuldade que tenho em rodar tudo ao mesmo tempo, a atenção que ora dedico mais a uma aba ou a outra que reclame minha atenção. Acho que tudo isso pode me ensinar (talvez já esteja, espero!) a transitar de forma mais compassada e cuidadosa entre todas as coisas que fazem a gente ser quem a gente é.

Esse relato, espero, já é parte desse movimento.

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ARRECADAÇÃO DE 12 e 13/04 NA PAULISTA: 
NÃO HOUVE (POR MOTIVO DE MUITAS ABAS ABERTAS)

COLABORAÇÃO NA CONTA: R$ 100
COLABORAÇÃO EM MÃOS (DE AMIGA DO MEU PAI, QUE ENTREGOU PARA ELE NO DOMINGO): R$ 30
AJUDA DE MIM PARA MIM: R$ 1,40

TOTAL EM 13/04: R$ 649,75 
META ATÉ 16/5: R$ 3,5 MIL

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Como algumas pessoas têm me pedido, vou deixar aqui dados para quem queira colaborar. Por favor, me mande um e-mail para que eu possa lhe agradecer, ok? =) É denize.guedes@gmail.com _/\_

Denize Ramos Guedes
CPF: 287769198-54
Banco: Bradesco
Agência: 0895
Conta Poupança: 0023145-2