Pessoa viva indo para Paris - Day # 09

Vou começar pela imagem que capturou minha atenção quando, enfim, juntei meu brio e fui ser 'Pessoa viva indo para Paris. Me ajuda? <3 :) ' sábado (11/04), na Paulista com a Peixoto Gomide, após dias sofrendo de contratempos e trolls. Peço para que guarde a imagem. Acho que ela será útil no final.

(Quero ir para a OuiShare Fest, que vai reunir a comunidade da Economia da Colaboração em Paris [ahá!], de 20 a 22 de maio. Mas não tenho grana. Inspirada em Amanda Palmer [meu caso de amor com ela vem desde 2013, ó!] e em sua arte de pedir, resolvi ser 'pessoa viva' [já que não sei ser 'estátua viva'] e... pedir ajuda. Começou assim.)

Já era noite, por volta de 19 horas, e eu entrava na estação Tucuruvi com balde, quadro, malinha e mochila. Num canto à direita, no fim do lance de escadas: um morador de rua abre os braços para dar um abraço em uma moça, de uns 18 anos, que, apesar de muito constrangida, sorri e aceita o enlace. Não chega a ser um abraço efusivo, fica mais para aqueles de quase encostar, de gentis tapas nas costas. E é isso. Bem no meu caminho para os guichês do Bilhete Único, que carreguei com R$ 30.

Ok. Vou no meu percurso só pensando em como chamar o mínimo de atenção possível ao chegar lá na frente da Marisa e preparar o "cenário" da pessoa viva. Tá, vou emborcar o baldinho, sentar nele, abrir a malinha (que é oportunamente antiga, dos meus pais, e dá todo um ar vintage e romântico para a história... a ideia é levá-la para Paris, claro :)), encher umas cinco ou sete bexigas, prendê-las no hashi, de comida japonesa mesmo, que as mantêm no alto, levantar, vestir a saia de tule preto (sim, agora tem saia de tule; ontem foi o primeiro dia :)), tirar a prancheta e a caneta para anotar o contato de quem quiser deixar, tirar o chapéu, tirar os post-its com desenho tosquinho da Torre Eiffel para entregar (agora tem o endereço do site tb :)), tirar a cortininha xadrez para cobrir o balde, fechar a malinha, colocá-la ao lado do balde, apoiar o quadro onde se lê "Pessoa viva... taltaltal' no balde, colocar a prancheta na frente dele, colocar o chapéu, com os post-its, em cima da prancheta e, enfim, subir no balde segurando o hashi com balões. 

Ufa! Só penso que as estátuas vivas de verdade verdadeira são muito, muito, muito ninja.

Desço na Trianon-Masp. "O que você foi inventar, Denize, o quêee?", digo para mim mesma. Bom, no fundo, eu gosto do que eu inventei. Mas é que, entre o fundo e a superfície, tem de lidar com um tanto de coisa que tira o ar da gente, não tem, não? Daí que, para me concentrar, lembro do que uma antiga colega de trabalho me disse como forma de mencioná-la no post da #gratidao. "Adoraria estar no seu lugar." Poooxaaa, poooxaaa, poooxaaa... "Vai, Denize, vai lá e fica em cima desse balde! Você quer isso, você quer!, desde que viu o Ted da Amanda Palmer!, então, vai lá e fica em cima desse balde!" Ponto.

Nas duas quadras até chegar à Peixoto Gomide, faço questão de sorrir e dar um aceno de cabeça para cada músico de rua, cada vendedor de qualquer coisa que faz contato visual comigo. Do pouco que já estive no balde, senti o quanto isso faz uma diferença incrível para aguentar o espaço de tempo com gente não te vendo, com gente olhando para o outro lado para disfarçar que não te vê, com gente que olha e tira o olho rápido, com gente que não sei se consegue ver a si mesmo, com gente. Até que alguém te vê. E sorri. Sorri e segue adiante. Ou sorri e para para te colocar alguma coisa no chapéu. E coloca. E diz coisas bonitas... Só sei que, a hora em que os olhos se veem, e sustentam isso, é alimento pra dentro da gente.

Chego e logo percebo que tenho companhia. Um moço magro, de cabelos pretos, vendendo pulseiras, anéis, brincos, encostado na fachada da Marisa. Ele me vê e sorri. Vou cumprimentá-lo e me apresentar (de fato, eu tinha conseguido juntar meu brio). Ele se chama Fábio e é argentino, portenho. Me oferece chocolates. Explico o que vou fazer. Ele diz que havia me visto outro dia e me deseja sorte. "Que entre grana pra gente, eh?", com sotaque bem chiado no "xente". Concordo, claro. Mas sei, internamente, que dar conta de ficar em cima do balde já será, tipo, incrível. 

Subo no balde. Às 19h49, marcado no relógio de rua mais próximo. Após toda aquela arrumação e tal. (Aêeeee!) E fico num trabalho interno de me dizer que, mesmo que ninguém contribua ou que quase ninguém contribua, eu tinha ido. E tinha subido no balde. (Dancinha interna de comemoração!, woww!)

Mas, aí, pessoas começam a contribuir. (Yaay!) A primeira foi uma garota com o namorado. "Boa sorte, você vai conseguir! Meu sonho também é ir pra lá!" O segundo, um moço que me disse coisa parecida, pediu para tirar foto e falou que iria ajudar divulgando também. O amigo dele, igual (foto e divulgando). A terceira, uma menina que passeava com as amigas, disse coisa bem parecida e, da mesma forma, tirou foto. A quarta, uma mulher que me disse, "Você vai conseguir, confia", com uma ternura tão grande no olhar que me deu vontade de lhe dar um beijo na bochecha. Não dei, só agradeci muito. Muito. A quinta, uma moça com uma outra menina. "Seu sonho não é ir pra Paris? Faz assim que nem ela", falou entusiasmada. A menina, por sua vez, fez foto do meu lado, abraçadinha. ( <3 ) O sexto, um rapaz com a namorada. "Boa sorte, moça. E parabéns!" Achei massa. ( \o/ ) A sétima, uma moça com amigas, também disse coisas boas. O oitavo, um rapaz alto que me deu um baita de um susto e uma alegria instantânea ao mesmo tempo: chegou rápido, depositou mais rápido ainda umas moedas no chapéu e saiu correndo. Assim. "Obrigaaada, moooço!!", gritei. Ele olhou para trás, acenou e seguiu andando bem rápido. 

Com exceção desse moço, entreguei para todos o post-it da Torre Eiffel. Eu havia levado cinco prontos -- e tinha me considerado otimista. Daí, poxa, tive até de fazer mais nos intervalos  (tirando proveito da vantagem de ser "pessoa viva")! :) Agora, engraçado, dessa vez não peguei contatos. É que eu senti, como já havia sentido nos outros dois dias, que era como se a troca já estivesse feita. As pessoas queriam me dar aquele dinheiro. Pronto. Pelo simples e puro fato de eu estar ali daquele jeito, pedindo. E acabou. Sem espera por recompensa. Ao contrário, na maioria das vezes, pedi para que levassem o post-it. 

A conexão humana parece ser recompensadora por si só.

Bem, às 20h49, já havendo experimentado pisar em diferentes áreas do balde para aliviar a dorzinha que começa a se formar em toda a sola do pé após uns 15 minutos sobre ele, desci do balde. Desci feliz, satisfeita por ter ido (seu Amaury tentou tanto me dissuadir), surpresa com o resultado. Guardei tudo, menos a saia de tule, com a qual fui embora no corpo (maior ousada [e besta, rs]!). Despedi-me do Fábio e fui caminhando para a estação Consolação.

No caminho, pensei que eu poderia andar até o final da Paulista e pegar um ônibus para o Terminal Princesa Isabel, vizinho de casa, no ponto da Consolação. Isso me pouparia duas baldeações no metrô, das quais mooorro de preguiça. Boa, caminhando eu fui. 

E foi aí que eu vi Joaquim. Não sabia que o nome dele era Joaquim, saberia no final. Com roupas bem descuidadas, primeiro o tomei como um morador de rua que talvez tivesse me visto lá em cima do balde com os balões. Ele falou algo comigo. Não entendi e pedi para repetir. "Estou com a minha mulher, ela ali", apontando. "Não temos a passagem para ir embora pra casa. Ela fica que não se aguenta de vergonha, mas não tem jeito, fia, tenho de pedir. Um homem já me ajudou com R$ 2. Você não tem uma moeda pra ajudar a ir inteirando?"

Olho para Cássia. Não sabia que o nome dela era Cássia, saberia no final. Ao pé da vitrine de uma loja, com os braços cruzados, roupas muito bem cuidadas, ela flexiona os joelhos frenetica e alternadamente. Olha para mim e para a Paulista. Para o marido, para mim e para a Paulista. "Será que não tem, não, fia?", ele insiste.

Eu digo que o dinheiro que eu tinha havia colocado no Bilhete Único, que era uma pena, que eu queria ajudar. Sabe-se lá por que, eu não conseguia conceber mexer no dinheiro que estava no chapéu dentro da mala. Naqueles poucos segundos, eu só entendia que eu não concebia mexer ali... Ele disse que tudo bem e agradeceu por tê-lo ouvido. Andei um pouco e olhei para trás. Um rapaz fazia que não com a cabeça para ele.

Parei, pus minhas coisas no chão e comecei a vasculhar minha mochila. Joaquim percebeu. E ficou olhando. Ele tinha esperança. Tinha por ele e pela mulher. Olhei para ela. Joaquim notou e gesticulou para que ela viesse até onde eu havia parado. Era na esquina com a Bela Cintra, acho. Ela veio. Acanhada, ainda de braços cruzados. Dei meu Bilhete Único a ela, expliquei que ali deveria ter algo em torno de R$ 30. Ela perguntou meu nome. Eu disse, ela me agradeceu com meu nome. 

E foi aí que fiquei sabendo o dela. Perguntei para abraçá-la. "Ôo, fia, eu tô precisando mesmo." Seu marido, que não havia se movido, de longe, pediu um abraço também. Fomos até ele. E foi aí que fiquei sabendo o nome dele.

Cássia e Joaquim.

Voltei para casa lembrando dos nomes. Eu sabia ali que gostaria de escrever sobre eles no post dessa noite de sábado no balde. O dinheiro no chapéu rendeu R$ 18,55. O dinheiro para Cássia e Joaquim, R$ 30... (Oooi, pai! Eu sei que você tá balançando a cabeça... É que pareceu a coisa certa a se fazer :-/ ) Pareceu a coisa certa a se fazer. Pareceu. Muito. Muito mesmo.  E o que a gente pode fazer quando sente a coisa certa a se fazer?

Somente juntei um ponto ao outro já quase pegando no sono -- e fiquei que nem uma exclamação estatelada na cama, até pegar no sono outra vez. Assim, ó: sabe a moça no Tucuruvi? A que não se opôs ao abraço do morador de rua, que não levantou a guarda, que não fingiu não ver? Gosto de pensar que ela fez o que pareceu certo. Só fez.

 

ARRECADAÇÃO DE 11/04 NA PAULISTA: R$ 18,55
AJUDA DA DONA DEISE: R$ 9 + UMA NOTA DE US$ 1 (#DonaDeiseRocks)
AJUDA DE MIM PARA MIM: R$ 1,50

TOTAL EM 11/04: R$ 518,35 
META ATÉ 16/5: R$ 3,5 MIL

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Como algumas pessoas têm me pedido, vou deixar aqui dados para quem queira colaborar. Por favor, me mande um e-mail para que eu possa lhe agradecer, ok? =) É denize.guedes@gmail.com _/\_

Denize Ramos Guedes
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