Um botão de rosa para Eduardo Damico

Percebo que ele vai me abordar. Ele havia abordado a pessoa à frente, que com um meneio de cabeça qualquer não o atendeu. Eu entendo essa pessoa, muitas vezes deixei de atender um morador de rua, um desconhecido na calçada, alguém com quem não podia lidar naquele momento. Mas a história não é sobre a pessoa à frente.

A história é sobre Eduardo Damico. Eduardo, esse é o nome do rapaz meio maltrapilho sentado ao pé de uma árvore, de frente para o mercadinho mais próximo da minha casa, para onde eu me dirigia com alguma pressa. Nos segundos em que me aproximo de Eduardo, cujo nome ainda saberia, resolvo que vou me deixar ser abordada.

"Moça, por favor, não é dinheiro que quero pedir." Ao ver que presto atenção, continua. "Faz mais de uma hora que estou aqui tentando pedir ajuda pra alguém me comprar, por favor, uma caixa de bombons pra minha filha. É aniversário dela, de 3 anos, hoje. É só isso que quero, uma caixa de bombons. Já vi que tem aqui por R$ 8,90. A senhora poderia comprar pra mim, eu não quero dinheiro."

Eu estou no cheque especial, para variar (sou a contradição de mim mesma; odeio as instituições financeiras, mas é delas que muitas vezes me valho no mês). Estou no cheque especial, mas, sim, posso comprar uma caixa de bombons. Cheque especial tem dessas coisas, dar acesso a uma caixa de bombons mesmo quando não se tem mais dinheiro. Eduardo Damico não tem cheque especial. Não tem nem sequer teto, como viria a saber.

Digo a ele que vou comprar. Peço que me espere e evito olhar de volta. Fico desconcertada em alguém ficar feliz por isso, acho que não era mais para a gente ter de lutar com esse tipo de questão. A gente já pisou na lua, a gente já desvendou várias leis da física e da porra toda, a gente já declarou direitos da humanidade. Por que a gente ainda está tendo de passar uma hora implorando a ajuda de alguém para comprar uma caixa de bombons?

Decido comprar, além dos bombons, quatro ovinhos de Páscoa (havia quatro cores diferentes) e um papel de presente. Ainda separo R$ 10 no bolso do shorts para dar a Eduardo também. Ele não me pediu dinheiro, mas certamente precisa. 

Saio e vou até Eduardo. Entrego a ele a sacola com a caixa de bombons, os ovinhos e a embalagem para ele fazer o presente. Ele agradece muito, fala qualquer coisa sobre estar ali todo aquele tempo para isso, para receber mais do que havia pedido.  É neste momento que pergunto seu nome, para chamá-lo pelo nome. Nome. A gente tem um, todo mundo tem um. Mesmo que não tenhamos como comprar bombons.

"Eduardo. É Eduardo. Eu era motoboy. Já tive 22 motos, mas me roubaram a minha última. Aí, já viu, né? Olha, eu comecei a trabalhar ali (estamos na Alameda Barão de Limeira e ele aponta para o prédio da Folha de S.Paulo), no 4o. andar, no auditório, Frias (não sei se é o nome do auditório ou se o escritório de um dos Frias, donos da Folha, fica no mesmo andar). Eu tinha 12 anos, comecei a trabalhar com 12 anos. Tenho 39 hoje."

E me conta isso com o olhar de quem se esforça muito para que eu acredite na sua história. Mas eu acredito. Acredito mesmo, de verdade. Tento transmitir isso a ele no olhar também, e apertando sua mão. A gente não deveria se esforçar para que acreditassem na nossa história... Pergunto a ele onde mora, onde mora a sua filha.

"Eu moro ali na Marechal (Deodoro, estação do metrô), na rua. Vendo bala no farol, vendo Halls. Mas hoje tô muito cansado, muito cansado mesmo. E é aniversário da minha filha, ela mora com a mãe", conta parando por aí.

(Para quem possa pensar nisso, ele não tinha qualquer traço de que poderia estar sob o efeito de alguma droga. Agora, mesmo que tivesse, isso não o deveria tornar invisível e/ou não merecedor de uma caixa de bombons e uns minutos de conversa, não?)

Eu tinha um ramalhete de flores na mão, que havia comprado para deixar a casa mais alegre num fim de semana em que vou ficar enfurnada escrevendo um material que precisa ser entregue até terça. Peço a ele que escolha uma flor para dar a sua filha também.

"Ôoo, mas não precisa disso, não, para... É mesmo?... Qualquer uma? Posso escolher mesmo?... Ah, vou pegar essa rosa, pode ser?... É?... Então, tá!", pegando. "Mas, ó, vou ter de ser honesto com você, vou dar pra minha mulher."

Ok, tudo bem. A flor que ele escolhesse já não seria mais minha no momento em que ele a escolhesse. E foi uma das rosas vermelhas -- eu acabara de ganhar dois botões da senhora da floricultura. (O universo é ou não é engenhoso? :)) Ele ficou tão feliz.

Foi ali que senti que se eu tirasse do bolso os R$ 10 que havia separado para ele poderia quebrar o que havíamos construído momentaneamente ali, aquilo de duas pessoas se reconhecendo, sei lá, no humano que somos.

Me despeço de Eduardo chamando-no pelo nome. Ele pergunta o meu também. Digo. Ele sorri grande, mostrando os dentes que lhe faltam mais para trás. Aperto sua mão e ele diz: "Eduardo Damico. É Eduardo Damico meu nome".

E vamos cada um embora com nossas vidas.

Tudo de bom, Eduardo, tudo de bom.